GM conclui acordos e anuncia investimento

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O presidente da General Motors América do Sul, Carlos Zarlenga, conta que nos dois últimos meses passou as noites em claro. Não o deixava pegar no sono a preocupação com a possibilidade de que algo desse errado no seu plano de pedir uma cota de sacrifício a empregados, fornecedores, revendedores e governo estadual para evitar que a empresa deixasse de investir no Brasil. Nesta semana, porém, Zarlenga voltou a dormir tranquilo. A direção mundial da companhia deu sinal verde para um novo programa de investimentos, que será anunciado terça-feira. Zarlenga diz, no entanto, que a sobrevivência de todo o parque industrial automotivo está ameaçada pela falta de competitividade do país.

Segundo antecipado pelo governo paulista, o novo plano envolve em torno de R$ 10 bilhões (US$ 2,6 bilhões). Mas a GM prefere deixar para confirmar valores e outros detalhes na presença do governador João Doria (PSDB) e do secretário da Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, dois personagens importantes do enredo protagonizado por Zarlenga. O anúncio do investimento será no palácio dos Bandeirantes, com a presença de Barry Engle, presidente da GM Américas.

Uma das principais vitórias de Zarlenga é um inédito acordo com fornecedores. Segundo o executivo disse ao Valor, dezenas de empresas aceitaram reduzir preços de peças e manter os valores congelados pelos próximos dois anos. Para marcar o entendimento, executivos de trinta grandes fornecedores foram convidados para a celebração, na quarta-feira, no campo de provas da montadora em Indaiatuba (SP).

Zarlenga não acredita que algum deles possa desistir ou arrepender-se do acordo mesmo numa inesperada variação cambial. Segundo o executivo, independentemente de um pacto dessa natureza, a indústria não tem conseguido repassar aumentos de custos ao consumidor. Dessa forma, fornecedores que não aceitaram o acordo tendem a enfrentar dificuldades para reajustar preços.

Segundo o executivo, os concessionários aceitaram redução de margem de lucro. Eles temem que eventual falta de investimentos represente o fim da renovação da linha de produtos. Com os sindicatos dos trabalhadores foi acertada redução de benefícios e algumas bases já concordaram ficar sem reajuste salarial neste ano. Os fornecedores começam, agora, a buscar acordos trabalhistas semelhantes. A parte do governo paulista foi apresentada há uma semana, com o anúncio de um programa de incentivos fiscais.

Zarlenga, argentino com formação em economia e há três anos no comando da operação GM no Brasil, garante que o novo investimento não sairia sem o conjunto dos acordos já firmados. E contesta as suspeitas de que a montadora líder do mercado brasileiro, com três fábricas de veículos e uma de motores no país e que deixou de divulgar o resultado financeiro na região, estaria blefando ao ameaçar com a suspensão dos investimentos no país por falta de lucros. “A GM vendeu a Opel (antiga divisão europeia que agora pertence ao grupo PSA), encerrou operações na Rússia, na Índia e na Austrália e fechou cinco fábricas nos Estados Unidos e uma no Canadá. Isso é blefe?”, questiona.

Poucas semanas depois de Zarlenga ter escancarado seu plano por meio de cartas aos empregados, a Ford anunciou o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Para alguns, o caso teria ajudado a GM a convencer as autoridades de que as multinacionais não permanecem onde não obtêm lucro. Mas Zarlenga evita comentários dessa natureza. Diz apenas ver a decisão da concorrente com preocupação. Por outro lado, o presidente da GM afirma não ter dúvidas de que mais fábricas de veículos podem fechar no Brasil. “Quando deixamos de investir em novas linhas de veículos, com o tempo os modelos atuais deixam de ser fabricados, o que significa o fechamento de fábricas”, destaca.

Segundo ele, a maior parte das empresas do setor não consegue retorno do capital investido e nem tampouco exportar, o que aliviaria oscilações cambiais, porque produzir veículos no Brasil é mais caro do que em países como México e Coreia. No México é cerca de 30% mais barato, diz. A vantagem competitiva dos mexicanos, afirma, vem, sobretudo, de uma carga tributária menor e um sistema logístico melhor. “Nas fábricas, os sistemas produtivos são os mesmos”, destaca.

Para o executivo, a indústria automobilística instalada no Brasil e Argentina “deve ser o único caso de um parque com capacidade para produzir em torno de 4,5 milhões de veículos, um dos maiores do mundo, com escala e sistema de produção eficiente, mas que não consegue ter retorno do capital investido e nem tampouco exportar”. “E vender para a Argentina ou vice-versa não é exportar; é como mandar um carro de São Caetano do Sul para o Rio de Janeiro”, diz.

Os problemas estruturais do país são antigos. Mas, para Zarlenga, nunca foram confrontados. E, no setor automotivo, “ficaram escondidos”. Em parte, porque, nos últimos anos, alguns investimentos foram feitos com remessas das matrizes. Para o executivo, além disso, a crise, entre 2013 e 2016, que levou a uma queda de produção de quase 50%, ofuscou a falta de competitividade do setor. “Mas quando a crise começou a passar, as matrizes começaram a comparar o Brasil com outras regiões e a perguntar: mas esse era um problema passageiro, de crise, ou crônico”. Para ele, o programa automotivo lançado em novembro, o Rota 2030, não toca nesse ponto.

Os acordos fechados agora garantem esse novo investimento. Mas o futuro, diz ele, está nas mãos do governo. “A carga tributária é absurda, temos um alto custo trabalhista e graves problemas de infraestrutura”, destaca. Para Zarlenga, se a reforma previdenciária não sair neste semestre o país corre o risco de perder credibilidade. A reforma tributária, segundo ele, deveria vir logo na sequência. “É na tributária que o setor automotivo precisa se inserir”, afirma.

O presidente da GM sugere, ainda, um programa de curto prazo voltado especialmente para a exportação. “Um feito apenas para que não continuemos a exportar os impostos extorsivos”, afirma. Para ele, esse programa funcionaria como uma espécie de “band-aid” até o cenário macroeconômico acomodar-se em novos parâmetros. Os problemas apontados por Zarlenga não são novos. E não é de hoje que as montadoras reclamam da carga tributária. Mas, desta vez, as filiais brasileiras se veem encurraladas. Um drástico enxugamento mundial parece ser a única saída para a indústria de veículos sobreviver e acompanhar a evolução do produto que ela mesma criou.



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